Dia da criança. Serão as nossas crianças actualmente felizes?

De Rebeldes a queridos Anjos.

Ainda me lembro das grandes brincadeiras com jogos de grupo na rua da minha casa. Nesse tempo brincava-se muito na rua até ouvirmos as vozes das nossas mães bem distantes a chamarem por nós.
A bola, o arco, o pião, a patela, o elástico, a macaca, as caricas, a apanha, as escondidas, o hóquei sem patins…etc. … Eram muitas as brincadeiras que juntavam meninas e meninos na rua sem grande movimento de veículos motorizados. Vivíamos livres com muitos gritos, joelhos com feridas, calças rasgadas e o único risco que corríamos na altura era de sermos atropelados por alguma bicicleta, levando ainda um ralhete dos pais por não estarmos atentos ao movimento do transito…

Contudo havia a Mélú, uma mulher gorda que parecia ter uma raiva fora do normal contra a “canalha” (a criançada). Para ela éramos uns rebeldes terroristas incorrigíveis, mal-educados, ralhava a alta voz connosco e chamava a polícia.

Não me lembro de algum dia ter aparecido a polícia, mas lembro-me de um dia a Mélú ser presenteada no lancil da sua porta com um belo exemplar e cheiroso detrito humano…

Os rebeldes cresceram, as crianças desapareceram da rua actualmente ocupada com carros. A Mélú viveu em paz, gozando a boa reforma dada pela geração de rebeldes e morreu em paz na sociedade que sempre a aceitou…

Que é feito dos pequenos rebeldes dos dias de hoje?

Não há… A raça das Mélús vingou e cresceu.
A geração dos meus filhos não pode jogar bola na rua, por motivo dos carros que circulam e dos que estão estacionados, sendo escorraçados pelas Mélús salvaguardando algum eventual risco nos seus caros automóveis.
Na escola também não se pode jogar à bola, pois está perto de uma estrada e a bola pode saltar para a rua…
Mas para mal dos pequenos rebeldes dos nossos tempos, nem nos jardins dos condomínios das nossas enlatadas casas podem brincar. Pois as Mélús estão mais preocupadas com a felicidade do bom crescimento da relva e das flores, ralham e proíbem irritadas as brincadeiras dos nossos rebeldes, em nome da boa razão de evitar eventuais despesas ao condomínio por estragos na beleza vegetal…

Não me admirava que num futuro próximo os rebeldes actuais metam as Mélús a vegetarem em lares sem flores e campo…

Mas não. As Mélús que se tranquilizem. Pois os nossos rebeldes estão finalmente a ficarem educadinhos.
Que bom que apareceu a maravilhosa tecnologia dos jogos computorizados e das consolas, acabaram finalmente com as incursões dos rebeldes nas ruas e nos jardins. Todos os jogos passaram para o virtual. Foi a solução total para acabar com as feridas nos joelhos e calças rasgadas, os carros já estão protegidos das bolas e assim já nem é preciso gastar dinheiro em criar espaços alternativos para a criançada brincar, onde só apanham sol na cabeça, partem braços e fazem barulho com os seus gritos incomodando as coitadas das Mélús.
Afinal não faz mal nenhum conduzir carros virtualmente por entre as pessoas, atropelando-as e mandando-as ao ar em grandes cambalhotas, ou dar uns tirinhos com as armas mais mortíferas para esvaziar o inimigo em sangue. Jogar e jogar até conseguir o último nível sem pestanejar.
Oh… como estão agora uns completos anjos os nossos rebeldes. Sossegadinhos e vidrados nestes exemplares jogos de técnica evoluída. Como ficam saudáveis com aquelas cores rosadas nas suas caras. Maravilhosa também a técnica dos novos heróis destes jogos, que conseguem levar os nossos anjos a comerem facilmente aquela comida tão bem aceite pelos mesmos. E ainda oferecem brindes nessa comida, como ficam felizes os nossos anjos. Que bem alimentados ficam, como estão gordinhos os nossos anjos. Nada daquelas sopas de legumes intragáveis do nosso tempo em que o único brinde eram umas boas sapatadas no rabo por não comermos tudo…

Finalmente para satisfação das nossas Mélús temos agora uma geração de anjos sossegados, bem alimentados e bem-educados. De certeza que nos vão ficar eternamente gratos por esta infância feliz e garantir uma boa reforma na nossa velhice…

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publicado por Abrasar às 08:24
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